Desde o início do ano, as televisões generalistas em sinal aberto acumulam perdas de audiência. Agosto acentuou a quebra de audiências das televisões em sinal aberto, que estão em mínimos do século XXI. O último mês foi negro para os gigantes da televisão nacional, SIC e TVI, que registaram resultados preocupantes na média do total dia: a estação da Impresa desceu a barreira dos 20 pontos percentuais (19,3% de share) e o canal da Media Capital ficou-se pelos 22,3%. Em sentido inverso, o conjunto das estações do cabo tem vindo a conquistar, paulatinamente, mais quota de mercado: em agosto, chegaram aos 30,7% de share, batendo mais um recorde.

Esta tendência verifica-se desde março último, curiosamente (ou não) o mês em que a GfK, empresa que mede de forma oficial as audiências em Portugal desde março de 2012, concluiu a alteração do seu painel. Para as generalistas, os números são ainda mais preocupantes tendo em conta que o público disponível para consumir televisão, por conta da crise que obriga mais pessoas a ficarem em casa, mesmo em tempo de férias, aumentou. Por isso, SIC e TVI também investiram nos meses de verão - tradicionalmente ocupados por reposições -, lançando grandes formatos, como foram os casos de "Splash! Celebridades", "Cante Se Puder", ambos da SIC, "Big Brother VIP" e "Dança com as Estrelas", da TVI. Também a RTP 1 e a RTP 2 têm registado números anormalmente baixos de audiência. O primeiro canal da televisão pública soma, de janeiro a agosto, uma média de 12,1% de share. Já o segundo canal regista 2,5%.

Para Luís Marques, estes números não surpreendem. "Era previsível", afirma o administrador editorial da Impresa, dona da SIC, à Correio TV. "A queda dos canais free to air [sinal aberto] já era expectável, devido à oferta diversificada dos canais por cabo, mas acredito que, a partir de agora [setembro], os números vão estabilizar", explica. Apesar desta quebra, Luís Marques alerta para o facto de a soma dos resultados dos canais em sinal aberto em Portugal ser "superior à média da maior parte dos países europeus". "Há espaço para todos", refere o responsável. O administrador da estação de Carnaxide diz ainda não acreditar no esgotamento do modelo de programação dos canais generalistas. "O consumo e a oferta vão manter-se mais ou menos como estão atualmente", afirma.

Luís Cunha Velho partilha da mesma opinião. "Longe disso. O modelo não está esgotado", defende, de forma perentória, o diretor da TVI. Na opinião deste responsável, "os canais generalistas são aqueles em que os telespectadores mais se reveem e vão continuar a ser os de maior audiência, porque são os que estão mais perto das pessoas e os que recebem maior investimento". "Os outros são canais de nicho", afirma Cunha Velho, que assinala, no entanto, a importância de a TVI ter canais no cabo (TVI 24, TVI Ficção e +TVI) para poder ter outros produtos "que não é possível ter na generalista". Cunha Velho afirma ainda que as estações em sinal aberto "continuam e continuarão a ter peso junto das audiências" e alerta para o facto de o cabo ser "um conjunto de vários canais" que, "se vistos de forma isolada, representam pouco".

Já Francisco Penim, ex-diretor da SIC e atual coordenador geral de programas e promoções da CM TV, considera que "a televisão generalista continuará a ser erodida pelos canais de cabo". Em agosto, "com mais pessoas disponíveis para consumir televisão, há mais escolha potencial de conteúdos", e isso, desta vez, "pode ajudar a explicar as quebras na TV generalista durante este período", sublinha. Ainda assim, Penim acredita que "o modelo da televisão terrestre, generalista ou não, nunca estará acabado... mas vai ser reduzida a sua parcela". "É o sinal de um amadurecimento do público, que se tem tornado mais seletivo, com maior escolha, que acede a conteúdos com ferramentas cada vez mais eficazes e é mais conhecedor." E diz ser expectável que, "no próximo ano, os canais exclusivos do cabo continuem a subir o seu peso total no consumo de televisão".

Também Fernando Sobral, crítico de televisão, defende que os novos canais nacionais exclusivos do cabo podem "roubar" cada vez mais telespectadores a estações como a SIC e TVI. "Muitas vezes são mais inovadores. São mais rápidos a ter respostas. Vivem da sua vitalidade criativa", diz. Pelo contrário, os generalistas "tendem a passear o seu aparente poder, sem capacidade de renovação rápida". O crítico tem uma visão pessimista do futuro da TV em sinal aberto: "A tendência dos generalistas será centrar-se no que pode ser visto por todos e, com isso, vai-se fechando no seu labirinto, até se perder nele".

Para Manuel Falcão, "as notícias sobre a morte dos canais generalistas são largamente exageradas". O diretor-geral da agência Nova Expressão considera que o crescimento dos canais cabo "tem a ver com o fenómeno de alargamento da base do cabo" e não vê "uma relação significativa" entre a mudança do painel de medição de audiências e a descida da SIC e TVI. "Há uma perda de influência dos generalistas, mas estes continuam a ser maioritários", diz Falcão, que chama ainda a atenção para alguns "fenómenos de sazonalidade", como os canais infantis, que "têm grande prevalência nesta altura do ano". Também Francisco Penim assegura que "quem pensar que a TV generalista caminha para o fim está enganado". Isto porque "haverá sempre uma grande massa crítica de pessoas que consumirá conteúdos que só os canais generalistas conseguem oferecer".

Para recuperar audiências, SIC e TVI apostam em grande na rentrée de outono. E Luís Marques assume estar feliz com as mais recentes estreias da SIC: "Amor à Vida" (que bateu recordes há duas semanas) e "Sangue Bom" (líder de audiências na estreia), a que acrescem "Sol de Inverno" e "A Guerreira", ainda em setembro, e "Factor X", em outubro. "As estreias têm estado a correr muito bem", defende Marques, que acredita que estes produtos "vão trazer de volta alguns telespetadores".

Também o diretor da TVI acredita que "as coisas se vão recompor no inverno", com a mudança dos hábitos dos telespectadores, que vão estar "mais tempo em frente da televisão". Para isso vão ser também decisivas as novas apostas do canal, como "I Love It" (que estreou na semana passada), "Belmonte" e a quarta edição de "Secret Story - Casa dos Segredos" (a 6 de outubro).

Fernando Sobral não tem dificuldades em assumir que as novas apostas das estações para a rentrée "podem recuperar audiências" e "seduzir os telespectadores", mas "são apostas rotineiras, fotocópias do que já foi feito, sequências do que deu lucro no passado". "Há alguma verdadeira novidade aí?", questiona, para logo em seguida responder: "Nem uma."

Fonte: CM

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